Devo deixar claro, para início de conversa, que tratarei nessas linhas da poetisa e não da amiga incrível, da confreira acadêmica da APLA – Academia Pedro-segundense de Letras e Artes - Aldenira Martins.
O que se apresenta diante de mim no momento em que escrevo esta apresentação de ‘EU, Lírica’, o primeiro livro de poesia dessa autora, é o grande prazer de ler ainda nos originais o que ela tem produzido, e ao mesmo tempo a responsabilidade de comentar aqui.
Conheço sua poesia há algum tempo, a publiquei nas três edições da Coletânea Raspa do Mameleiro, organizada por mim. Mas nem o fato de lidar com sua poética me tira o frescor da leitura ao me deparar com seus poemas, e de me encantar mais uma vez.
Aldenira (nome que em germânico significa ‘nobre guerreira’) seguiu a princípio o percurso da adolescente que por ler com frequência, viu na leitura um modo de viajar para além dos paredões da comunidade Serra dos Matões, seu torrão nesse mundo de Pedro II, Piauí.
Mas ao contrário de muitas jovens, resolveu dar o segundo passo para além da leitura: escrever. E já que era (e é) uma nobre guerreira resolveu lutar a luta mais vã, que é a luta com as palavras, como nos alerta Drummond.
Aliás é ela quem diz no poema intitulado ‘Palavras’ que: /“Palavras não têm vida/Quando soltas ao vento./Criam sangue e sentimento/Quando enlaço e aprisiono/Aos meus inquietos pensamentos”/.
Qual Stéphane Mallarmé, a poetisa intui que ‘poesia se faz com palavras, não com ideias’. Claro que as ideias são sempre bem-vindas, mas se não encontrarem as palavras que as traduzam, o poema não acontecerá. Ou acontecerá um mal poema.
Porém nem só de trabalho árduo com as palavras vive sua poesia. Há também um burilamento lúdico que a torna tão bela e atraente como uma gema de opala. Seu eu poético pulsa também num lirismo singular e lânguido e diz entre o sussurro e o grito: “Vivi no mundo da lua/Quando me apaixonei”.
Por vezes o eu lírico da nobre guerreira diz coisas belamente infantis como canções de ninar: “Vou semear canteiros/Beijinhos em forma de flor”. Tudo a ver, pois a palavra ‘lírica’ vem de ‘lira’, um instrumento usado para acompanhar os poetas da antiguidade enquanto declamavam seus poemas.
Mas aí a poetisa nos surpreende de novo com outra faceta de sua poesia, um erotismo que desce à alma. Como no poema ‘Teu Olhar’, do qual citamos um trecho: /“Teu olhar é uma arma cortante/Que por um instante/Em mim penetrou/Invadindo minh’alma/Desnudando meu eu/Deixando em chamas/ Meu corpo lascivo”/.
Há também uma poetisa telúrica (mais uma faceta) que canta seu torrão natal, como no poema “Filha da terra”: “Sou filha da terra/Sou fruto do amor /De cima da Serra/E do Gritador”
Ou ainda quando canta sua terra mãe, no poema ‘Pedro II’: /“Minha terra é pequenina/Cabe no meu coração/Berço de muitas mentes/ Ernâni, Genuíno, Conceição”/.
Às vezes numa só estrofe a poetisa como que sintetiza as quatro vertentes principais de sua poesia: o lirismo, a inocência, o telúrico e o erótico e parece criar uma quinta vertente-mãe, a filosófica. Veja-se, por exemplo, ao falar do poeta: /“Não tem sexo,/É anjo inquieto/Voa longe para caçar palavras/Na escuridão”/.
Prezado leitor, prezada leitora, aqui finalizo minha simplória apresentação. Quero antes deixar-vos com a leitura dos poemas da nobre guerreira. Pensemos apenas que seria enganoso ler um e depois o outro e mais outro, sem levar em conta que há anos entre uns e outros, assim com há poemas que não entraram nesse livro. Estão sendo depurados, esperando o momento propício.
Mas os que temos diante de nossos olhos são o resultado de inspiração e muita transpiração da poetisa. Há mesmo, eu diria, uma vida inteira metamorfoseada em palavras, pois como ela mesma diz: /Dou asa à imaginação/E transformo tudo em poesia/.
O livro EU, LÍRICA. Editora Nova Aliança, 115 p. (com capa de J. Batista), texto da contracapa: Dayse Benício (também poetisa das boas e filha de Aldenira), correção da poetisa Marina Campelo já chegou às mãos de Aldenira!
Em breve teremos seu lançamento. Mas os seus ávidos leitores e leitoras já o podem adquirir e aguardar a noite de autógrafo para abraçar Aldenira, tirar fotos, degustar salgadinhos, beber do vinho servido e mergulhar nesse seu primeiro livro de outros que virão. Fiquemos com dois poemas de Aldenira Martins.
Palavras
Palavras não têm vida
Quando soltas ao vento.
Criam sangue e sentimento
Quando enlaço e aprisiono
Aos meus inquietos pensamentos
E faço pequenos versos
No espelho da folha fria
Dou asa à imaginação
E transformo tudo em poesia
Palavra é documento
É arma de fazer carícia
O poeta
O poeta tem asas na cabeça
O coração nas mãos
A boca cheia de metáforas
Diz o que quer como quem não quer.
Não tem sexo,
É anjo inquieto
Voa longe para caçar palavras
Na escuridão
Ernâni Getirana ( @ernanigetirana ). Professor, poeta e escritor. Presidente da APLA de 2010 a 2018, e membro do IHGPI). Idealizador do projeto Tenda da Cruviana, membro fundador do Coletivo P2. Autor de “Debaixo da Figueira do Meu Avô”, dentre outros. Escreve para este portal aos sábados.
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